Como um leigo compra um cavalo (ou como não deveria comprar)

Comprar um cavalo pode ser o sonho de muitas pessoas — às vezes nem mesmo delas, mas de seus filhos, esposa, namorada ou mãe. No entanto, esse processo está longe de ser simples. É curioso como muitas vezes essa compra é feita (ou melhor, como não deveria ser feita) e o que era para ser um sonho se transforma em um verdadeiro pesadelo.

Como um leigo compra um cavalo (ou como não deveria comprar)
Como um leigo compra um cavalo (ou como não deveria comprar)

Falo como leigo: adquirir um cavalo exige considerar uma série de fatores para não acabar com um “mico” caro e sem utilidade nas mãos. É preciso avaliar índole, documentação (papel), adequação ao propósito, tamanho, nível de doma, saúde e idade.

As consequências de uma compra errada são inúmeras. Vão desde tombos perigosos e animais incompatíveis com as necessidades do comprador, até decepções profundas, custos altíssimos com veterinários e a frustração de tentar revender ou reeducar o animal sem sucesso.

As armadilhas mais comuns na compra de um cavalo

Estas são algumas das formas mais comuns de aquisição onde as chances de dar errado são altas:

  • O Whisky (Leilão): Muitos leilões de cavalos são regados a álcool em grande quantidade. Os animais chegam impecáveis, com pelagem brilhante e preparados por especialistas para impressionar. Acordar no dia seguinte como um “feliz proprietário” costuma ser apenas uma consequência da quantidade de bebida consumida.

  • A Paixão (Cegueira): Quem nunca olhou para um animal e se apaixonou à primeira vista? Muitas vezes nem é pela beleza, mas por pura empatia ou pelo sentimento de que podemos “ajudar” aquele cavalo. Nesses momentos, ignoramos idade, problemas de saúde e aptidão. Já vi o cavalo morrer pouco tempo depois, resultando em um prejuízo emocional e financeiro enorme.

  • A Beleza: O cavalo por si só já é um animal fascinante, mas alguns chamam tanta atenção pela beleza que nos cegam. Cuidado: você não vai gastar dinheiro apenas para olhar o animal na cocheira; você quer montar. A manutenção de um cavalo é cara demais apenas para tê-lo como peça de decoração.

  • A Ignorância: Cada cavalo tem uma finalidade específica (salto, tambor, adestramento, laço, etc.). A musculatura, o tamanho e a personalidade da raça importam muito, e um animal não pode ser treinado para qualquer coisa. A ignorância também se manifesta quando compramos sem a avaliação de um médico veterinário — muitas vezes, problemas físicos graves são mascarados pelo vendedor no momento da venda.

  • O “Treinador”: Quem está começando no esporte costuma contar com a ajuda de um treinador. Infelizmente, há profissionais excelentes, mas também há os mal-intencionados. Para alguns, a compra e venda de cavalos é um negócio lucrativo onde ganham comissão em ambas as pontas. O pior cenário não é receber pela assessoria técnica, mas sim ajudar o aluno a fazer a escolha errada do animal só para girar o mercado.

Sobre os comerciantes, a função deles é vender, mas é lamentável quando mascaram problemas físicos ou “mentais” do animal — sendo que um problema comportamental pode provocar um acidente grave.

Eu mesmo vivi uma experiência marcante sobre isso. Enquanto assistia a uma clínica da minha filha, comentei com um comerciante que ela havia recebido um cavalo chamado Télos. Ele imediatamente me alertou para devolvê-lo, contando quantos cavaleiros já haviam caído dele. Era um ótimo animal, saltava muito e era dócil, mas tinha o hábito repentino de derrubar quem estava em cima. É exatamente a esse tipo de problema “mental” que me refiro.

Recomendações de um leigo

  • Busque um profissional de confiança: Tenha ao seu lado alguém experiente e verdadeiramente idôneo. Pesquise o histórico do profissional, onde trabalhou e qual é a sua reputação (a internet está aí para isso).

  • Contrate um bom veterinário: Escolha uma equipe de confiança para examinar o animal antes do fechamento. Não confie cegamente em qualquer indicação; converse com amigos e busque referências de profissionais comprometidos.

  • Teste o animal: Visite o cavalo de surpresa, monte nele várias vezes (ou peça ao seu treinador, caso você seja inexperiente) e pesquise o histórico do animal na internet, conferindo competições e registros.

  • Cuidado com trocas de nome: Para encobrir um histórico problemático, é comum mudarem o nome do cavalo. Exija sempre a documentação original.

  • Converse com a comunidade: Fale com amigos e frequentadores da sua hípica. O meio equestre é interligado; dificilmente um cavalo ou criador é totalmente desconhecido. Sempre haverá alguém com uma referência para dar.

  • Exija toda a documentação: Os animais transitam pelo país com documentação própria. Se passaram por vários haras, devem ter os papéis de transferência. Ignorar isso pode deixar você com o prejuízo de um cavalo que ainda está registrado no nome do primeiro dono, enquanto já passou pelas mãos de outros quatro.

Aqui ficam as dicas e reflexões de quem já passou por isso.

Por Marco Vidal

Fundador do site Clube do Hipismo, praticante do esporte, proprietário de cavalos, pai e avô de atletas.

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